Nos dias atuais não permitimos mais rotular alguém por não saber falar corretamente a língua, ler, escrever ou ter comportamento diferente... O matuto, por exemplo, é rotulado como aquele que não tem conhecimentos, instrução; ignorante, ingênuo... Indivíduo que vive no campo e cuja personalidade revela rusticidade de espírito falta de traquejo social; caipira, roceiro..., Todos merecem seu espaço e devem ser respeitados como realmente são.
Veja a carta de um matuto que morava em São Paulo, para sua mãe que vivia no interior do Nordeste.
Sum Palo, 20 de Santana do mermo ano que nóis tamo.
Maim, to cum muinta sardade! Já fais treis méis que a sinhora num vê eu, e já fais treis méis que nóis num si vê. Maim, aí vai duas cata, uma dento da ota; pruque se uma num chegar, a ota chega.
Maim, o pá de sapato numero quareta que a sinhora mandou mi pidir, eu num achei, mais vai doiz de 20 que é a merma coisa. Assim o home que mim vendeu falor.
Maim, diga a Chiquinha minha noiva, que eu só vô ai, lá por méis de abrir do ano qui vem.
Maim, Cuma vai minha irmam Fulozina? Ainda tem boi? Se já vendeu tudo, mandi mi avizar.
Maim, vai aí 300 real numa carta e 200 real na ota, só mum mandei 500 real pruque o dinhero num deu.
Maim, aí vai um vestido veio pra sinhora metê em casa e um novo pra sinhora metê na rua.
Maim, se tiver aperriada, venda as bestas das minhas irmam e se aguente com o cavalo do meu irmão Otonho seu fio. Ói maim, se os cabaço das menina tiver seco, dê pra cumpade lascar. E se fartar farinha, se agüente cum a mandioca de cumpade Mané, inquanto a do papai ingroça. Sim maim, os Passarim qui eu truce daí, morreu tudo, inté minha rola amanheceu dura.
Maim, só num digo que ti Zé morreu, pruque a sinhora pode ter um susto e isso não é bom, pruque a sinhora já ta veinha.
Maim, eu era sordado, agora to de cabo pra riba.
Estou mandando um presentinho pra sinhora; recumendo qui a sinhora abra bem a mala, arribe bem a ropa e soque bem no fundo pra ninguém robá..
Vô terminar cum muinta sardade de você e de todo. Bença maim.
Assina: Eu, seu fio, Zezinho da lagoa.


